quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Começar de Novo


Começar de novo
Ivan Lins

Começar de novo e contar comigo

Vai valer a pena ter amanhecido

Ter me rebelado, ter me debatido

Ter me machucado, ter sobrevivido

Ter virado a mesa, ter me conhecido

Ter virado o barco, ter me socorrido
Começar de novo e só contar comigo

Vai valer a pena ter amanhecido

Sem as tuas garras sempre tão seguras

Sem o teu fantasma, sem tua moldura

Sem tuas escoras, sem o teu domínio

Sem tuas esporas, sem o teu fascínio

Começar de novo e só contar comigo

Vai valer a pena já ter te esquecido

Começar de novo...

No início da década de 80, a Globo lançou uma das primeiras séries da TV brasileira, Malu Mulher, com Regina Duarte no papel principal, cuja música tema era Começar de Novo, de Ivan Lins. Contava a saga de uma mulher recém-separada, vivendo as agruras de um tempo preconceituoso, em um país machista, em plena ditadura militar. Saiba mais aqui. A série foi um sucesso absurdo e motivou toda uma geração de mulheres escravizadas por seus pares, pais, companheiros a pensar em liberdade. E como todo sucesso estrondoso, teve seu fim no auge. Bom pra relembrar...


Eu, que tinha uma semelhança física com Regina Duarte na época de Malu Mulher, me sentia a própria e muito embora ainda fosse muito jovem para um casamento ou separação, o seriado era meu programa favorito, não perdia um. Anos mais tarde, quando precisei passar por um divórcio, incorporei a Malu Mulher que existia dentro de mim e me libertei de toda infelicidade de um tempo.


E como toda ruptura, esse momento me fortaleceu e me transformou. Percebi que era capaz de muito mais. Também percebi que não eram as pessoas que não olhavam pra mim, era eu que não levantava minha cabeça para vê-las. E ao encarar a vida com os olhos e a vontade renovadas, descobri que todo sofrimento tem data e hora pra terminar. E que apesar de dar trabalho, viver bem é a cura para todos os males.


Fiz as pazes com a vida e a alegria me encontrou. E não tenho medo de começar de novo. Porque vale a pena, vale muito a pena.

P.S. Um beijo aos meus amigos e amigas de jornada. Força, a vida é um eterno recomeçar!

sábado, 19 de novembro de 2011

De repente

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes


Peguei emprestado o Soneto da Separação do “Poetinha” porque nada mais caberia aqui do que um ‘de repente’, uma separação. Se você busca ler algo leve e divertido, saia daqui agora. Não é sobre o amor ou a diversão que preciso falar. Preciso colocar pra fora essa angústia que me cercou e me tira o sono e me dói o peito. Essa separação de mentes, de alma, de suor diário, de dever cumprido.

De repente, tudo aquilo que você tem de mais sólido vira ruína, cai como uma implosão, desmorona. Uma sensação de fracasso, de decepção vira rotina. De repente, seu dia não é mais o que tem sido e tudo o que você constrói vira pó, areia que você não consegue segurar entre as mãos, esvai-se entre dedos. De repente, tudo o que você acredita, não existe mais e o que fica é um gosto amargo de derrota.

De repente, seu dia tem 48 horas e não mais 12 e o relógio bate e não sai do lugar. De repente, andar pelas ruas e prestar atenção às pessoas e lugares é uma distração e não mais uma necessidade de correr contra o tempo. De repente, preciso lembrar de respirar, o que antes era automático. 

Mas isso tudo não me derrota, já superei o inimaginável e sai fortalecida. Não é qualquer vento que me quebra, que me derruba. Sou galho verde, que enverga mas volta ao lugar, mais forte do que nunca. Vai precisar muito mais, mas muito mesmo pra tirar minha vontade de viver, de felicidade e de alegria.

De repente, eu volto, não mais que de repente...

domingo, 23 de outubro de 2011

O poder do abraço

Tudo que você pensa e sofre 
dentro de um abraço se dissolve…
Martha Medeiros


Dias atrás meu marido foi hospitalizado e sofreu uma cirurgia não programada. O médico dele estava em Nova Iorque e pediu para que um médico de sua equipe o atendesse. Depois da cirurgia, ele quis conversar comigo no centro cirúrgico. Cheguei, ele apertou minha mão forte, meio que me puxando. Resisti, não sei ao certo por qual razão. Quando terminou de falar comigo, me deu um abraço. Sai emocionada. No dia seguinte, já no quarto, ele chega e me dá o maior abraço do mundo,  tão carinhoso, tão forte, que me marcou. Pensei em todos os abraços que já dei e naqueles que ficaram no meu coração, como uma marca...

Adoro abraços! Mais do que qualquer outra coisa, amo abraçar e ser abraçada! Gosto tanto que até mesmo a cena mais marcante dentre todos os muitos filmes que já assisti – e foram muitos – é de um abraço, em Reds com Diane Keaton e Warren Beatty.

Abraço apertado, emocionado, abraço que envolve todo o corpo, abraço demorado, sentido, forte, esperado. Abraço de urso, que quase quebra ao meio. Abraço sem querer, meio sem graça, que se quer se desvencilhar. Abraço de amor, de amizade, de filho, de irmã e de pai.

Mais íntimo que beijo, mais gostoso do que tudo é um abraço bem dado. Abraço inesquecível, que mesmo depois de separado, continua sentido, amado.

Cazuza dizia que a definição de abraço que ele mais gostava era que o abraço é o encontro de dois corações. É isso, dois corações unidos, juntos, que se encontram, se aquecem, se confortam.

Simples e único. Esse, afinal, é o poder de dar e receber um bom e carinhoso abraço...
P.S. "Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam."
Clarice Lispector

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Clara clareou

Embora eu não seja católica ou frequente a missa dominical, tenho o costume de ir à igreja quando ela está vazia, sentar e conversar com Deus. Faço isso desde a época do colégio de freiras, quando era obrigada a assistir às missas todo santo dia! Sem trocadilhos. Era um martírio para uma garota de 7 anos, mais moleque do que menina, ficar sentada uma hora inteira, sem dar um pio. Então, baseada na incapacidade de mexer um músculo, desenvolvi o hábito de conversar com Ele, bater altos papos, até cansar. De lá pra cá, seja num momento muito triste, só pra chorar, ou emocionada de alegria, sento no banco de uma igreja e penso, converso, resolvo. Aquele cheiro de antigo, o eco, o barulho dos bancos, as velas, tudo me é familiar. E me sinto em casa. Fico confortável, como um sapato velho que cai bem no pé. Sensação gostosa.

E, por mais que eu tente fugir da religião, fui criada em uma casa de vila, de frente para um terreno. Nesse terreno, havia uma casa muito velha, mas muito velha mesmo. E um dia, resolveram instalar lá uma igrejinha para Clara. Quase uma capelinha. E Clara tornou-se minha amiga. Sentava  nos bancos de sua casa e falava, falava. E Clara sempre linda, me ouvindo, impávida. Rosto de mãe que tudo entende e perdoa. Sempre que tenho um aperto, um pedido, faço a ela, minha cara e quase imediatamente sou atendida. E quando não sou, entendo. Até Clara tem seus limites.

Dia desses, uma amiga estava pra ter filho, uma menina. Problema. Fui até a casa da minha mãe almoçar e me deu uma vontade louca de conversar. Atravessei a rua e lá estava a sua casa reformada, pintura linda, obra de duas irmãzinhas que dormiram no chão para dar o presente à amiga. Ficou tão lindo. Pedi pra Clara ajudar a pequenina. Meia hora depois sua bolsa rompeu e a menininha veio pra vida. O cordão tinha um problema e ela não ganhava peso. Precisou vir ao mundo pra ficar forte, sadia.

Clara é assim, não faz barulho mas sempre clareia minha vida. É um alívio contar com ela, sempre. Minha Santa, obrigada. Salve Santa Clara, minha amiga. 


P.S. Clara, obrigada!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Confesso que vivi...esperando por isso

Há tempos queria fazer algo para meus pais, principalmente depois de me mudar para tão longe. A distância estava me deixando triste por vê-los tristes e isso não me fazia bem. Minha primeira ideia foi dar um computador, logo em janeiro passado, mas eles dois têm uma resistência danada para o novo. Esqueci. Pensei num carrochinho, mas meu pai, com sua delicadeza lusitana foi logo dizendo: nem me apareça com isso aqui! Logo, esqueci também, pensando no que o bichinho sofreria e meus pais também J Depois, pensei numa viagem, mas seria uma solução passageira e meu pai mais uma vez abortaria. Tentei levá-los a restaurantes, principalmente ao português, paixão do pai. Nada, nem aceitou meu convite. Difícil...

A máquina que daríamos pifou. Parecia mais um sinal para não me aventurar a levar mais um bronca. Meu genro que não desiste de nada, principalmente de economizar, pegou o lap pifado e levou pra casa: em uma semana eu arrumo. E arrumou. Domingo passado, levei a máquina e meu medo para a casa dos pais. Que aflição: todo mundo falando que não daria certo, que detestariam, que não usariam. Pra minha surpresa e alegria, receberam tão bem, mas tão bem, que enquanto saia com Eme para comprar o modem, Bé ensinou pra minha mãe a digitar um texto no Word! Hahaha... Mal chegamos com o modem, já entramos no Google Maps e meu pai pode ver suas terras no Marnel, Lamas do Vouga, em Portugal. Vi que ficou contente. E eu, mais feliz ainda. Deixei Isabella por lá por uns dois dias para ensiná-los, já que ela não tinha aula, mas não muito otimista.

Hoje, ligo para eles e descubro que minha mãe não estava. Novidade, a velha gosta de bater uma perninha! Depois de uma hora, ela me liga já em casa: fui na escola, filha, lá na avenida. Que escola, mãe? Fazer o quê? Na escola de computação! Eu e minha amiga Alice vamos nos matricular. Era um plano antigo, só faltava o computador! Hahahaha, alguém pode imaginar minha alegria?!

Só pra esclarecer, minha mãe não aprendeu a dirigir porque sempre disse que não tinha capacidade para tanto, nunca tocou num computador ou fez uma transação bancária na vida. Meu pai quem dirige e cuida dos pagamentos. Sempre foi dona de casa, cuidou dos filhos, netos e marido a vida toda. Embora tenha um potencial incrível, boicotou-se por décadas! Agora, numa atitude corajosa para uma mulher de quase 70 anos, resolveu ir à luta. Estou tão orgulhosa dela. E dele também, que não disse não.

Aos meus pais, meus heróis, dedido este post. Eu os amo e tenho muito orgulho de vocês. Obrigada por tudo!

P.S. Bill Gates que se cuide: aí vem Dona Dalva hahaha

Albertina e sua foto

Levei um tempão procurando uma foto da Tia Albertina comigo para publicar com a crônica que escrevi para ela aqui. Não encontrei. Ontem, revirando o baú de fotos antigas dos meus pais, encontrei esta, com minha prima irmã, Nanda. Tudo bem, não sou eu, mas a atriz principal tá ai: Albertina, a tia!
Tia, nem preciso dizer mais nada...



P.S. Se algum dos primos tiver fotos da Tia comigo ou só, me mandem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pic Nic

Minha avó Dulce não era uma exímia cozinheira, aliás, mal posso chamá-la de cozinheira. Era uma mulher à frente do seu tempo: em princípios do século XX, gostava é de trabalhar fora. E não era um fora qualquer, era em suas terras mesmo. Mulher valente, com menos de 1,45 de altura, se transformava em um trator em força e agilidade. Só que meu avô sofria muito com isso... não fosse pela bisa Luíza, eles não comeriam naquela casa. A verdade é que a avó detestava a cozinha e principalmente, de cuidar da casa. Então tudo o que ela fazia, ficava mais ou menos.

Dentre as pouquíssimas coisas que ela cozinhava bem, estavam a broa de milho, que ela mesma amassava (com minha ajuda quando lá passei algum tempo) e um frango ensopado absurdamente bom. E é desse frango que quero falar...

Numa ocasião em que lá estivemos, visitamos vários lugares de Portugal: Fátima, Nazaré, Bragança, Barcelos, Guimarães, Lisboa, Coimbra, dentre tantas cidades. Portugal é um país muito pequeno, então em pouco tempo, visita-se quase todo ele. Foi em Coimbra, que visitamos uma igreja muito antiga e próxima dela, fizemos um piquenique delicioso, que jamais vou esquecer. A paisagem era típica européia: um riacho correndo, muito verde e a igreja, muito antiga, mas muito bem conservada, um pouco mais acima do local onde sentamos para comer. Cada mulher da família preparou um prato e a avó, o famoso frango ensopado. Confesso que nunca mais experimentei nada igual, embora procure em todos os frangos que como, o sabor único e exclusivo daqueles temperos suaves, do molho denso e marrom dourado, a broa mergulhando nele e sendo devorada pelos famintos seres pertencentes àquele clã.

Sinto o sabor e o perfume daquele ensopado até hoje e ainda hoje, ao escrever este texto, minha boca enche-se d’água. E meu coração bate mais forte, todas as sensações voltam como se estivesse naquele campo novamente, sentindo o ar frio de uma manhã de verão batendo no meu rosto. E aquele sentimento de conforto que uma comida caseira traz me invade e me aconchega. E a presença da avó me acompanha e me emociona. Eu não a tive todo o tempo comigo, a distância nos afastava, mas os momentos que vivemos juntas me marcaram profundamente. À ela, Dulce, dedico este texto, com todo o amor que uma neta pode ter por sua avó. Te amo, vó, onde quer que você esteja !

P.S. Na foto: Dulce e Valdemiro, meu pai Fernando e minha tia Alcinda

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Aletria...

Aletria é um doce típico português, cuja preparação não varia muito. Encontrei a receita abaixo no Dr Google, no site Doces Regionais e foi a que mais me remeteu à minha infância. Aletria era um doce de festa, que minha tia Cinda fazia com perfeição. Minha mãe, pobre, não conseguia acertar o ponto. Sim, o doce tem um ponto certo e se passar, fica um horror. É basicamente macarrão cabelo de anjo com ovos – claro que tem que ter as gemas, afinal, é um doce português – e açúcar, açúcar demais pro meu gosto. Mas é algo que todas as vezes que vejo, enlouqueço! Tem a capacidade de me tirar do sério, seja porque me remete a um período muito feliz da minha vida, seja pelo prazer de provar um manjar dos deuses. É o doce mais gostoso do mundo!
Todas as vezes que a tia preparava aletria, sempre terminava com travessas a menos. Eu era a rainha de revirar as panelas e comer uma travessa inteira, mesmo quente, escondida de todos. Doce travessura, que me rendeu alguns cascudos, mas também, momentos de puro deleite.
Aletria me lembra vó Dulce, amada avó, minha querida tia, meu amado tio Noel, pai, mãe, irmã e primos. Era um doce que unia a família, era na verdade, da família. Lembro que pequena achava que a tia tinha criado a aletria e só nós a conhecíamos, assim como os rijões e outras gostosuras lusitanas, tal a importância dele em nossas vidas. Doce ilusão.
Ainda hoje, me transformo em criança ao saber que a aletria estará à mesa e me transporto. Viro uma guriazinha de uns 6 anos, toda lambuzada do creme dourado e canela, saindo de trás das cortinas, feliz, feliz da vida!
ALETRIA
Ingredientes:
          200 grs de aletria
          7,5 dl de leite
          300 grs de açúcar
          5 gemas
          150 grs de manteiga s/ sal
          casca de limão SICILIANO
Ferva a aletria com o leite, o açúcar, a casca de limão e a manteiga. Mantenha no lume até que a aletria tenha absorvido todo o leite. Junte então 5 gemas bem batidas, mexendo até estarem cozidas.
Ponha numa travessa e tire a casca do limão. Polvilhe com canela em pó.


P.S. A tia fazia esses desenhos, se chegasse antes de mim J

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quando a luz dos olhos meus



Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Pela luz dos olhos teus, Tom Jobim

É exatamente assim que me sinto quando penso na primeira vez que meus olhos se encontraram com os seus… e o que ficou gravado na minha memória foi o sorriso do seu olhar. Se os olhos são o espelho da alma, vi neles a ingenuidade de um menino e a força de um leão. Aqueles olhos que sorriam refletiam toda tristeza e peso demasiados para um jovem ainda. É como se o momento tivesse parado, congelado e como num filme, uma imagem em sequência mostrou toda a vida até aquele momento. Trocamos poucas palavras, mas o tempo pareceu eterno. E assim me apaixonei.

Ainda hoje, aquele olhar é muito nítido na minha memória. Com o tempo, descobri que você tinha um humor delicioso e que sua risada era o melhor som pra minha vida. E que você não era tão triste assim… Por você, tive coragem de decidir minha vida. E com você, vivo-a até hoje com alegria. Passaram-se muitos anos e ainda hoje sinto um conforto absurdo ao relembrar a imagem do seu olhar no meu.

E se existe uma definição para o amor, é a luz e o sorriso do seu olhar.


P.S. É disto que estou falando...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Uma doce lembrança portuguesa

Languidez
“Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar... “

Florbela Espanca, em "Livro de Mágoas"

Portugal é um capítulo à parte na minha vida. Não sei se era muito pequena quando para lá parti e tudo nessa idade é fantasia, ou se minha capacidade crítica ainda estava muito longe do esperado; o que sei é que uma nostalgia e um sentimento de paixão invadem meu coração quando ouço qualquer assunto ligado ao país. Emociono-me às lágrimas, minha garganta aperta.
Tudo o que vivi naquela terra me lembra alegria e contentamento. Uma sensação de aconchego. Os aromas invadem minhas narinas e a memória fica mais viva. Experimento um sentimento puro e doce de entorpecimento e me transporto para as doces paisagens da aldeia de Pedaçães, Mourisca do Vouga, Águeda, Aveiro, Portugal.
Não há um só dia que não me lembre de Portugal com ternura. Todas essas lembranças fazem meu peito doer, mas são uma dor de prazer. Das frutas silvestres colhidas pelo caminho sinto o gosto doce da aventura, dos pães amassados junto com minha querida avó Dulce, sinto a textura. Do meu avó, ouço a risada e o amor contido de um velho senhor português conservador. Uma parte da minha vida ficou naquele verão, passado ao lado de pessoas e lugares queridos. Os piqueniques à beira dos rios, o sabor da comida preparada com o alimento fruto da terra, plantada por eles e por eles colhida.
Nunca fui tão feliz e nunca senti tantas saudades de tão pouca vida. Ao meu Portugal, deixo minha homenagem de uma vida bem vivida. Amo esse país, assim como amo o meu próprio. Meu coração foi e será sempre dessa terra amada, apaixonante e linda.
P.S. Embarcando na aventura lusitana

sábado, 10 de setembro de 2011

Um mudcake e eu...


Maridão partiu para uma viagem de negócios e me senti só. Por conta disso, resolvi atacar de chef. Preparei algo bem light para o jantar: alcachofra e uma taça de pinot noir só para mim, assistindo A Garota da Capa Vermelha. Tanto a alcachofra como o vinho estavam bem melhores do que foi o filme, bem médio pra ruim. Vale pela fotografia muito bem cuidada e por Amanda Seyfried, belíssima! 


Claro que eu precisava meter o pé na jaca na sobremesa: mudcake divino (receita da fantástica Rita Lobo aqui), sorvete de cookies e calda quente. Inferno ! Agora preciso treinar o dobro pra queimar tudo isso.

Marido, volta logo! Mal você partiu e já morro de saudades! Te amo!
P.S. Faltam 7 dias pra você voltar

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Homem do Futuro e uma sobremesa


Este final de semana ficamos sem filhos. De vez em quando, isso é bom pra renovar o casamento. Adoro ser mãe, mas às vezes é preciso um pouco de espaço pra namorar. Decidimos que queríamos assistir Planeta dos Macacos: as sessões eram dubladas. E eu não assisto filme dublado de jeito nenhum! Bom, deixamos o Morumbi e partimos para o Cidade Jardim; adoro aquelas salas Bradesco. Vale a pena o valor do ingresso: uma poltrona reclinável, altamente confortável, com mesinha giratória. Tudo de bom! Não preciso dizer que não conseguimos ingressos: tudo esgotado para Planeta. As outras opções eram boas, mas Planeta não saiu da nossa cabeça. Difícil decidir assim. Professora sem Classe (Cameron Dias – confesso que fiquei morrendo de medo de ser mais um besteirol americano e estragar nossa noite), A Árvore da vida (Brad Pitt e Sean Penn, ai!), Um Conto Chinês (com o excelente Ricardo Darín – só percebi que tinha ingressos depois... too late), uns outros filmes bobos e O Homem do Futuro, com Wagner Moura, aiai! e Alinne Moraes. Decidimos por esse, mais pelo Wagner (eu) e Alinne (Eme) do que pelo resto. Não é uma coca-cola, mas vale pela interpretação do Capitão Nascimento dos meus sonhos – que homem lindo, perfeito! Confesso que a última fala dele foi decepcionante: não esperava ouvir que ele” trapaceou e que mereceu”. Foi meio um soco no estômago, imagino que pela imagem do policial correto que ele ainda passa. Admito que não gostei... Mas valeu pela diversão. Conseguimos dar algumas poucas risadas. Mas definitivamente, não está na minha lista de melhores filmes. Pena.
Depois do cinema, fomos ao Pobre Juan, um restaurante rústico com uma variedade de carnes importadas deliciosas. A decoração é maravilhosa, simples e muito aconchegante – tá certo que não consegui ler o cardápio, o ambiente é escuro demais, com umas velinhas fraquinhas, fraquinhas - foi um show de horror essa parte -  então deixei meu marido escolher, mais pela impossibilidade para fazê-lo do que pela cortesia. E como eu sempre quero o que ele pede :), ele acertou mais uma vez. Mas não quero falar do prato principal, não meus amigos e amigas! Quero falar da sobremesa; quase tudo tinha dulce de leche J Havanna. Optamos pelos churros. Gente, é pra comer ajoelhado e reverenciando os deuses, virando os olhinhos de prazer. Muito melhor que qualquer coisa comparável, mas muuuito melhor.
Do filme lembro pouco, tampouco da carne ou do acompanhamento. O vinho foi regular, mas a sobremesa, meus amores, foi algo inesquecível. Pena que dividimos e só deu um palitinho pequeno pra cada. Ai que pena.
Melhor que o Wagner Moura....  quero dizer, nem tanto!


P.S. Não ganhei nada pra falar do Pobre Juan, somente a memória da melhor sobremesa...

Segundas de Calvin

P.S. Verdade...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Verdade...


"The better I get to know men, the more I find myself loving dogs."Charles de Gaulle

P.S. Este é Boo e ele é de verdade !
 

domingo, 14 de agosto de 2011

Minha Querida Tia... Albertina

Tia Albertina foi daquelas tias que nunca se esquece. Doce, generosa, suave. A tia era gordinha e dizia que seu peito era um travesseirinho no qual eu podia me encostar e dormir. E eu dormia. Tia Albertina era gaúcha, de Porto Alegre, da Avenida Borges de Medeiros. Era modista, com ateliê e tudo. Costurava para as socialites da época, para as mulheres de políticos, para a primeira dama da capital. Tinha uma vida ótima quando conheceu tio Celso, o irmão da minha avó, que era cheio de manias. Eles se encontraram já mais tarde na vida, na fase mais madura. E se amavam demais, ao modo deles, mas se amavam muito. Vi tio Celso umas duas vezes na vida, mas a tia vinha todos os anos pra São Paulo, às vezes em duas ou três oportunidades. E eu esperava tanto por essas suas vindas... Ela era apaixonada por criança, especialmente por nós, os sobrinhos postiços. Nunca soube quem não podia ter filhos, não sei quais os motivos e não importa. Queria ser sua filha, na verdade. Pensava, na época, que ela bem que podia me adotar :). Ela costurava muito e pra todos nós, especialmente quando éramos pequenos. E bordava demais! Era uma coisa, nunca vi nada igual. Lembro de várias roupinhas e especialmente uma blusinha rosa de linha com ponto tricô, que ela bordou com flores e linhas de seda e pérolas maravilhosas. Pena que minha mãe não seja afeita a acumular e não pude manter essas preciosidades comigo. Mas a lembrança de seu cuidadoso ponto, de seu capricho estão aqui comigo. Lembro do perfume de Tia Albertina: Fleur de Rocaille, de Caron. Procurei muito por ele e só recentemente o encontrei na Sack’s, uma perfumaria online. Uma pena, mas aparentemente o perfume mudou um pouco; mesmo assim ainda lembra um pouquinho Tia Albertina. Meus vestidos de formatura foram feitos por ela, um branco e um rosa, claro que bordados. O som de sua voz e a sutileza de seus conselhos, a suavidade, a delicadeza. Ela comia como uma rainha e eu a imitava. Acho que meus modos hoje são fruto de minha imitação, de minha tia. E adorava viajar, rodava o mundo todo, mesmo e especialmente depois que tio Celso morreu. Tinha muitas amigas e com elas viveu o que sempre quis. Mesmo tarde na vida, não deixou de viajar, de fazer plástica, de se vestir bem. Era uma tremenda mulher. Eu a amava demais e ainda amo.
A vida foi nos afastando e a cada vez, a via menos. Já com muita idade, não viajava tanto. Sinto não ter me despedido; mesmo assim, não sinto que ela partiu. Ainda posso sentir seu peito fofinho, minha cabeça recostando nele e o sono vindo. Ouça-a me chamando de guria e dizendo que eu era atrevida, com uma gostosa gargalhada. E eu era mesmo!
Fico imaginando se meus sobrinhos e sobrinhas se lembrarão desta tia aqui com alguma saudade, nostálgicos como eu por essa minha Albertina tão especial. Difícil. Os tempos são outros e não consigo me dedicar a eles como ela se dedicou a nós. Mas bem que gostaria...


P.S. Aprendi a cortar azeitona no prato com ela, motivo de chacota até hoje !

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Uma parte de mim

Sou apaixonada por cinema, cinéfila. Acho que nasci assim. Lembro da primeira sessão e como começou essa minha paixão: nas matinês do Cine Guaru, na praia de Pitangueiras, Guarujá, litoral sul de São Paulo. Há uns anos atrás J, as férias de verão começavam em dezembro e iam até fevereiro, inteiros. Quer dizer, três meses na praia, com mãe e tia vivendo a maior tortura de suas vidas: agüentar os guris por 90 dias, barbarizando. Daí, tínhamos uma certa liberdade e até éramos incentivados a sair do ap, haha. Guarujá, nessa época, era uma ilha de tranqüilidade: muito pequenos, ficávamos na rua até altas horas. Ir ao cinema era uma das nossas atividades prediletas e a primeira sessão sozinha a gente nunca esquece: tinha uns 5 ou 6 anos e fui ver Branca de Neve de Walt Disney sem mãe ou pai para fiscalizar. A roupinha era de domingo: vestidinho azul feito pela doce Tia Albertina de Porto Alegre (vale outro post), meia ¾ e sapatinhos boneca brancos. Até bolsinha tinha. E lá fui eu, orgulhosa da vida, me sentindo uma mulher! Só depois descobri que minha mãe voltou, entrou e ficou vigiando escondida nós quatro. Meus primos e eu éramos como irmãos e por isso fazíamos tudo juntos. Resumindo, as cenas de Branca de Neve estão em minha memória há muitos e muitos anos. Com o tempo, o cinema foi se tornando um lugar no qual me sentia muito bem, em casa. E por pior que fosse o filme, sempre gostava da sensação de aconchego da sala, a poltrona confortável, muito maior do que meu corpo, do cheiro da pipoca e do drops Dulcora ou Chucola. Adorava ! Depois troquei as sessões de desenhos por toda a sequência de Trinity (ai!), uns westerns péssimos: Meu nome é Trinity, Ainda me chamo Trinity e por aí vai até a versão 6.0 do personagem de gosto duvidoso.
Aeroporto 75 assisti no Cine Comodoro (a melhor sala de cinema de São Paulo, haha). Com minha adolescência e a mudança para o Objetivo da Paulista, pude me dedicar às minhas “aulas” favoritas nas tardes que o dinheiro (contadinho) permitia: Barry Lyndon de Stanley Kubrick. E daí em diante, todos os filmes em cartaz: Laranja Mecânica, Taxi Driver, Poderoso Chefão; Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Reds e a lista não para. O que para é minha memória, pobre, tentando lembrar de todos os filmes assistidos e com quem. Ah, com quem é importante...
Hoje, revendo alguns dos filmes que me marcaram, especialmente na década de 80, fico imaginando o tremendo fracasso que seriam no mundo contemporâneo: tomadas longas e quase congeladas, intensos e intermináveis momentos de reflexão silenciosa. Os bons mesmos viraram clássicos como Era uma Vez na América, Blade Runner, Cinema Paradiso, Retratos da Vida, Muito Além do Jardim. E os temáticos como a Festa de Babette e Como Água para Chocolate, que me inspiraram na cozinha. Tinha uma predileção pelos chorosos e românticos como Uma Janela para o Céu, snifsnif, Em Algum Lugar no Passado (esse eu decorei); saía do cinema com meu nariz como um repolho, vermelho como um tomate! Mesmo assim, não deixei de assistir várias e várias vezes seguidas.
De uns anos para cá, ando mais seletiva e procuro assistir filmes com os quais me identifico ou quase: As Pontes de Madison me marcou profundamente. Fase de quase final de casamento e eu me sentindo a própria Francesca, com um Robert me esperando. Meryl Streep e Clint Eastwood, monstros! Aquela maçaneta da porta do carro era tudo o que eu também queria abrir. Como torci por ela e como sofri com ela, eu também sem coragem de saltar do carro e correr para a camionete do fotógrafo da National Geographic. Amor imenso. Outras películas, como as de Giuseppe Tornatore e Almodovar, me transformaram.
Transporto-me para as telas, vivendo o drama e vida de outros. Como psicóloga de formação, diria que tenho um problema sério e escondo meus sentimentos, bloqueando as emoções na vida real. Quem me conhece sabe que não bloqueio nada. Acho que o que sinto é além de uma simples fuga: é o prazer da arte, do trabalho de pesquisa e montagem. Saber que para produzir um filme o sujeito leva anos e anos de trabalho duro e sério. Tenho um pouco de inveja do quebra-cabeça que deve ser montar um filme do zero. Apesar de exaustivo, deve ser um trabalho fascinante.
E se fosse começar tudo outra vez, escolheria o cinema como carreira, seja como crítica, produtora, diretora. Não importa. O que importa é que o mundo da sétima arte entrou em minhas veias, lá longe, naquela matinê barulhenta na praia de Pitangueiras. E nunca mais saiu, tornou-se parte de mim...
P.S. "O cinema é um modo divino de contar a vida." (Federico Fellini)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Nigella Lawson, Jamie Oliver ou Annabel Langbein ?


Sempre gostei de cozinhar, mas custei a aprender. Isso não me impediu de tentar. Lembro de ficar horas às voltas com uma tábua e uma faca, picando tudo miudinho na cozinha do sítio da Tia Cinda. Era pra isso que me usavam antes de aprender cozinhar. Era muito boa nisso, e ainda sou, com uma técnica mais aperfeiçoada. Tanto, que reclamam que pico demais os alimentos, coisa que tento me policiar. Nessas minhas tentativas culinárias ou desastres, melhor dizendo, lembro especialmente de uma experiência na casa de meus pais nos anos 80. Não lembro porque encasquetei de fazer macarrão com frango num domingo qualquer (esse filme é ótimo, especialmente o discurso do Al Pacino - assistam) na casa da minha mãe. Mas não era um frango ou um macarrão da mama. Devo ter encontrado a receita no jornal ou no pacotinho da sopa de cebola, tão hip na época. Era um macarrão à romanesca (esse, uma tentativa de imitação da LOsteria del Piero, que adorava) e um frango com maionese com a tal sopa de cebola. O problema é que o frango era assado e o molho do macarrão, branco. Qualquer pessoa sabe que frango tem que ser muito bem cozido, caso contrário, fica rosa por dentro, intragável e perigoso e que o macarrão com um molho assim, precisa ser feito e servido na mesma hora. Bom, a festa era grande porque era a primeira vez que assumia a cozinha da minha mãe em um domingo, coisa quase improvável para quem conhece D.Dalva ! E meu marketing foi de arrasar e a expectativa muuuuito grande (confesso que minha irmã ficou desconfiadíssima, na porta da cozinha de braços cruzados, me olhando de lado e não acreditando. Lembro até da roupa dela) . Quando servi tudo, com uma mesa linda de morrer, parecia que estava no Que Marrravilha do Claude Troisgros aguardando receber uma nota, suando como um cavalo após a corrida em dia de Derby. Só que ninguém conseguiu comer: pra começar, acho que não mexi o macarrão ao colocá-lo na água e quando tentava colocar no prato, ele vinha como um bloco. Ai! O frango, ah o frango... acho que os pedaços eram muito grandes e o tempo assando completamente insuficiente, porque ao tentar cortá-lo o galo cacarejava J Meu pobre pai, vendo meu sofrimento e derrota completa, comeu. Coitado, que perigo! Hoje, lembrando da cena, choro de rir. Na época, chorei de verdade, tamanha a humilhação. Depois desse dia, não me aventurei mais na cozinha até precisar fazê-lo novamente, depois de casada. Só quando sai das barras da saia da mãe e da ex-sogra, que cozinhavam maravilhosamente bem, resolvi tentar novamente. Como sempre gostei muito de ler, comprava todas as coleções de culinária conhecidas, enciclopédias, revistas e livros. E comecei a ler e tentar cozinhar. Com o que aprendi com minha ex-sogra e nos livros principalmente, me aventurei nas coisas mais básicas e mais tarde, nas não tão básicas assim.

A vida na cozinha é feita de fases: houve uma época que minha torta de limão e a torta mousse de chocolate (que tirei da embalagem do chocolate meio amargo da Garoto) eram famosas. Minhas quiches também. Depois acho que perdi um pouco a mão para os doces. Meus bolos nem sempre são bons, mas gosto, por exemplo, do meu crème brûlée, da mousse de chocolate e tiramissú. Hoje faço poucas coisas, mas bem. No entanto, a apresentação sempre foi fundamental pra mim. Gosto das louças e taças, de caprichar no visual, de colocar uma mesa linda, de receber bem (já fui muito criticada por isso; hoje, acho que as pessoas percebem isso como carinho e não uma coisa esnobe), das minhas tralhas de cozinha, que são inúmeras.
Contei tudo isso pra chegar onde quero finalmente: o título do post. Embora tenha aprendido com minha mãe, tia e sogra, hoje sou uma cozinheira melhor por conta de Jamie, Nigella e mais recentemente, Annabel, uma neozelandesa, que como ela mesma diz, mora num pedacinho do paraíso - paradise's corner e planta tudo o que consome.

Fonte: Annabel Langbein website

Aprendi que para cozinhar bem, não é preciso ter ingredientes caros e raros, mas sim os mais frescos que você puder conseguir na sua região. Aproveitar os produtos de época, que estão disponíveis e baratos nas feiras e hortifrutis. E principalmente, aproveitar o que está em sua geladeira e dispensa nos momentos express. Isso, Nigella também me ensinou. Com Jamie, aprendi a cortar e picar e se hoje não sou tão hábil com a faca como ele, é por pura falta de coordenação motora. Mas sou bem melhor do que era no passado. Observar e anotar as inúmeras dicas desses profissionais é a chave. E ver os programas e gravá-los para assistir num momento de puro relax, também. Tenho toda a série da Annabel gravada e não deixo ninguém apagar, assim como Refeições de Jamie em 30 minutos e episódios da Nigella, com algum prato que quero repetir.

Cozinhar é prazer. Fuja da cozinha se a vibe não for boa, se estiver irritada! Talvez por isso nossas avós enxotassem as mulheres menstruadas para fora da cozinha, dizendo que “as regras” faziam o molho desandar. Lembro da minha bisa italiana – a nona da Mooca – falando isso. Menstruação, TPM, sabe como é... aqueles dias em que você pode matar alguém J, períodos que os maridos odeiam e que os filhos, confusos, batem cabeça procurando fugir de você, pobres. Portanto, se estiver na condição acima, peça para ir a um restaurante ou que alguém assuma seu lugar, porque o que fizer não ficará tão bom como em outro dia qualquer.

Cozinhar é terapia. Se for obrigação, você coloca sua frustração na preparação, e tal qual a irritação, afetará sua comida. Tenho certeza que os sentimentos passam para a comida, não como em Como Água para Chocolate (assistam, o filme é antigo, mas vale a pena pela cozinha de Tita), mas sim com a paixão e amor pelos alimentos. A preparação é muito mais prazerosa e o resultado final será muito melhor

Cozinhar é conforto. Escolha uma roupa que goste, confortável, que você se sinta bonita. Não precisa usar seus paetês, sua melhor calça jeans ou seu top de seda. Mas também não precisa usar o moletom velho, rasgado e sujo que você usa pra pintar aquele móvel que resolveu reformar. Aquela roupa que nem seu marido pode ver, que você precisa se trocar se precisar retirar na portaria do prédio uma encomenda. Aquela que você parece ser um morador de rua que não toma banho há séculos. Que se cachorro sai correndo pra se esconder quanto a vê. Não! Use uma roupa cool, que você se olhe no espelho e diga: ficou ótima. O mesmo capricho no preparo do alimento deve ser aplicado no seu visual. A apresentação do prato começa por você. Ao menos, penteie o cabelo J

E finalmente, cozinhar merece reconhecimento. E quem não gosta de ser reconhecida? Você vai gostar. E quanto mais for reconhecida, aplaudida, mais motivada se sentirá para tentar novamente e novamente e novamente.

Felizmente, o medo do meu macarrão com frango (até hoje sonho com ele, o frango correndo atrás de mim, tentando me pegar) J não me impediu de continuar tentando. E muito embora siga todas as recomendações acima, ainda hoje faço muita besteira. E algumas vezes, coisas muito boas. E sinto muito prazer em cozinhar para minhas filhas, para meu marido, que é meu maior incentivador, para a família e amigos. Fico ansiosa até hoje como naquele domingo do frango assassino, suando, preocupada em acertar. É sempre um desafio pra mim. E sempre um prazer. E se não for assim, não vale...

Beijos

P.S. “Gastronomia é comer olhando pro céu.” Millôr Fernandes